domingo, 26 de março de 2017

Perdoai, eles não sabem o que fazem?

Perdoai, eles não sabem o que fazem?


Por Denise Araujo

“Novo mandamento vos dou: Amai-vos uns aos outros. Como eu amei a vós, assim também deves amar uns aos outros.
João 13.34


#Umbanda #Respeito #FE #Religiao #AUmbanda

               
            Havia um centro de macumba perto de casa. Bairro de subúrbio, sabe como é que é. As casas todas emendavam-se erroneamente. Era uma fila de casebres que fazia sobressair uma casa maior aqui e acolá. Na minha mente de menina, eram mansões: eu sublimava as coisas. Casas grandes não permitiam ver o que tinha dentro delas. Não permitiam incomodá-las e isso era empolgante para mim, moradora de um cantinho ínfimo e precário. Da porta da minha casa o transeunte já prenunciava toda a rotina da família. Meu sonho era ter um quarto só meu. Dormia com meus pais no único quarto que tínhamos. Ao crescer e ficar maiorzinha, passei a dormir na cozinha; e quando jovem, na sala. O quarto próprio só veio na idade adulta. Antes disso, privacidade era luxo.
            Falar daquele cantinho pouco aprazível, onde morei até poucos anos atrás, é só a desculpa para introduzir um texto que pretende ser um convite tímido ao amor. Tímido, mas ainda assim, um convite. Pois bem. Continuemos na casinha que era só mais uma em meio às outras. Mas o centro de macumba não. Ele era um dos lugares que destoava, pois era maior, e aos olhos de uma criança, infinito de grande. Havia sessões às sextas-feiras e aquela batucada toda dos ritos naturalmente chamava a atenção daquela meninada solta e desocupada na rua. Cheios de energia (e de ruindade, obviamente. Kkk), estávamos nós, eu e meus amigos, toda semana indo lá atrapalhar o ritual dos pobres praticantes. Ficávamos longos minutos, um a um, olhando no buraco da fechadura. Quando os pais e as mães de santo começavam a cantar ou ministrar suas rezas, nós começávamos a gritar ensandecidos pelo buraco do trinco da porta, até que vinha alguém enfurecido nos enxotar. Era a hora de esticar as canelas e correr. Mas tínhamos energia e achávamos pouco. Voltávamos e repetíamos tudo, e de novo, e de novo. Essa fase durou um considerável tempo. Imaginem como aqueles ritualistas nos amavam?


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Até eu, que tinha um temperamento mais introspectivo e apagado, ia na onda da maioria, porque queria me divertir nas raras vezes em que mãe deixava-me sair. Sim , é natural as crianças no subúrbio  terem certa independência e ficarem soltas nas ruas, nos idos dos anos noventa. Contudo minha mãe era páreo duro, não dava liberdades ou permissões regularmente. Nessa época eu tinha ódio. Hoje só agradeço por ela ter sido cautelosa assim. Mais tarde muitos foram os assassinatos de colegas de infância, o envolvimento com tráfico de drogas e com outros crimes, as prisões, as prostituições, enfim. Nas décadas de oitenta e noventa os tempos eram outros. Hoje a chapa é quente. Apesar das Quintas sempre ter sido um bairro tipicamente periférico e como tal viver uma realidade humana muito particular, na qual o pior às vezes vira mera rotina, hoje há uma escalada maior da violência, de modo que não é salutar deixar os filhos livres das vistas dos pais, confiando em ruas aparentemente tranquilas ou em vizinhança solidária. Como consensua a sabedoria popular, o “ seguro morreu de velho”.

A repreensão pura não faz verão. Era advertida a não ir importunar os pobres pais de santo, mas não era educada conscientemente em casa a respeitar a individualidade alheia, quiçá de um grupo ou de uma cultura, quiçá de um rito religioso em um país legalmente laico. Meus pais deram-me seguramente aquilo que puderam em suas condições, não podiam mais. Com baixa escolaridade e sobreviventes de uma vida muito dura, não há muito o que se fazer. Eu compreendo, e hoje sei que a educação pelo exemplo foi a pedra fundamental para mim. Era um ser pra dentro. Religiosa. Rezava terços. Adorava uma procissão e preparei-me para ser noviça, entretanto não sabia como lidar com o diferente. Tudo que não emulasse o Deus cristão, as imagens dos santos ou a “Pietá” de Michelângelo – com o cristo morto e nu nos braços, renegava sumariamente. Era ocultismo. Estava longe de saber que a intolerancia religiosa é um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade humanas. Como as explicações sobre o diferente não me vieram a tempo, eu perturbei, e perturbei muito. Minha mãe hoje é amiga da dona do tal centro e, mesmo quase trinta anos depois, sinto vergonha de abordar e dizer que eu era uma das tais maritacas do passado. Felizmente isso mudou e ficou no passado infante. O conhecimento pode ser libertador.


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É necessário no mínimo saber que a liberdade de culto no Brasil é assegurada pela Declaraçao Universal dos Direitos Humanos e pela Constituição Federal, no seu Art. 5, inc. VI. Além, disso, Por força desses dispositivos constitucionais, diz-se que o Brasil é um Estado laico, ou seja, o país é legalmente obrigado a permitir a liberdade religiosa. Hoje respeito e reputo saudável a existência dos diversos credos, bem como a falta deles também. Em nosso caso, entretanto, é cotidianamente difícil fazer valer a lei nesse aspecto. Percebe-se que parcela da população tem sofrido drasticamente com a intolerância, principalmente as religiões oriundas da África, como Candomblé e Umbanda. Não era apenas de mim, quando criança, que religiões e ritos como a macumba sofriam rejeição, o que leva a pensar que o Estado precisa agir educativamente para reforçar esses valores de respeito. Ministério da Educação, juntamente com governos federal, estadual e municipal podem e devem investir numa educação religiosa que abranja o ensino de diferentes religiões nas escolas, a fim de formar crianças e adolescentes mais respeitosos e conscientes.

            Segundo a Rede Brasil Atual, o Brasil possui atualmente estimados 160 milhões de cristãos, ou 80% da população. Nessa conta entram evangélicos, católicos e  espíritas. Não bastasse a intolerância religiosa, o país tem amargado outras intolerâncias. O cristianismo prega valores humanos como a paz, a tolerância e a solidariedade, portanto seria coerente que formasse declarados cristãos em pessoas de no mínimo boa vontade. Exemplificando com um acontecimento recente, vemos a repercussão da morte da ex-primeira-dama  Marisa Letícia, falecida no dia 03-02-2016 vitimada por um AVC. A internet foi o ambiente para mensagens veiculadoras de ódio ( algumas citando o nome de Deus para justificá-las), passando bem distantes de valores como pesar, luto ou compaixão pela dor alheia, que comumente uma sociedade cristã e culturalmente avessa à morte costuma gerar. Segundo Aline Ogliari, secretária nacional e coordenadora da Pastoral da Juventude, as manifestações sobre Marisa Letícia na história recente revelam um caso emblemático: “Perder a capacidade da compaixão, da sensibilidade, da convivência com o diferente, numa perspectiva política, mostra que a gente chega a um estágio de fascismo político, mostra que para ‘minha ideia’ aparecer eu tenho que aniquilar o que é diferente.”

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Intolerantes religiosos, cristãos que não seguem os preceitos declarados de sua religião e fascistas que não têm pudor de demonstrar desejos cruéis de aniquilação ou anulação do próximo. Poderíamos naturalmente perguntar o porquê disso. Incoerência? Falta de perspectivas? Irracionalidade? Maldade intrínseca? Perda do amor? Incompetência para a sensibilidade? Sugiro que não respondamos de pronto tais perguntas. Tentemos o caminho socrático, fazer dessas algumas questões filosóficas com as quais deveremos nos preocupar talvez até a exaustão, pois não é possível viver em uma sociedade equilibrada e harmoniosa com crasso número de pessoas demonstrando graus patológicos de incivilidade.
            Ainda segundo Aline Ogliari, o país assiste a uma "perda da sensibilidade, da capacidade de convivência com o diferente, o que, no caso, é um ataque a Lula, uma figura simbólica e a tudo o que representa a figura do Lula. Por isso a mídia hegemônica bate em cima do jeito que bate e a classe média e a falsa burguesia também batem. O ataque é à figura simbólica que o Lula representa na luta de classes.”  A crítica política é um exercício democrático. Nos últimos anos, foram constantes as críticas que os movimentos sociais fizeram aos governos do PT, por exemplo, o que é muito natural. Numa visão mais ideologicamente à esquerda, acreditou-se num projeto de país com suas reformas estruturais finalmente colocadas para atender o povo, ou seja, um mesmo partido ou ideologia pode receber críticas de seus consortes, aliados  e opositores. Os diálogos políticos devem urgentemente ser encarados como saudáveis – e não como espaços indesejados, aprofundador de animosidades ou, o que é pior, de litígios pessoais, posto que são parte da convivência democrática. A política prescinde disso. A política é isso, aliás. Como diria o barroco Gregório de Matos, que escreveu sobre os prazeres mundanos e espirituais: “ O todo sem a parte náo é todo, a parte sem o todo não é parte, mas se a parte o faz todo, sendo parte, não se diga que é parte, sendo todo”.  O debate é coletivo, é desgastante. Evidencia as contradições e dissonâncias. Prescinde de saber ouvir, aceitar que o argumento alheio pode ser superior, rever conceitos. Obviamente não é simples. Entretanto não fazê-lo tem um preço muito alto. As instituições e os governos amadurecem a passos muito lentos e por vezes até deixam de evoluir. É necessário interromper a lógica descrita pelo professor de Ética e Filosofia Política da USP, Renato Janine, segundo a qual no Brasil não há tradição de dissonância.


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Já ouviu falar de seres humanos que foram isolados em florestas como cobaias de estudos científicos e tornaram-se criaturas bem diferentes de nós, selvagens como os animais da selva? Pois é. Nós não estamos nesse bioma. Vamos aprender a nos virar por aqui mesmo. Demover nosso medo ou nossa indisposição para conversar. O que não é “natural” é o caminho que o país está seguindo, confundindo diálogo com ataques declarados. Os ataques à Marisa Letícia, por exemplo, são inconcebíveis de acontecer em um país que declara-se majoritariamente cristão, hodiernamente e no decorrer de toda sua história. O cristão que não ama está desobedecendo a Cristo. Simples. Somos chamados a amar no primeiro mandamento do decálogo, portanto é uma ordem. A quem declara-se cristão e não ama, caberia a reflexão: Está realmente tendo temor a Deus?
            Ora, o amor é uma característica distintiva de Deus. Se nós o amamos, também temos que amar o nosso próximo. As palavras sagradas sugerem uma relação de implicação. Mas podemos não saber quem é esse próximo que devemos amar. Podemos, inclusive, usar isso como desculpas para nossa falta de amor no geral ou em relação a alguém. E a própria bíblia aponta que o nosso próximo é qualquer pessoa que necessita da nossa ajuda. Quem ama ora, intercede e pede a Deus para abençoar aqueles que estão em sofrimento, mesmo que eles tenham nos prejudicado de alguma forma. Eis a grandeza. Dizia o papa João Paulo VI: “ Quando olhamos ao homem com amor, já chegamos às fronteiras de Deus; porque esse homem que amamos e respeitamos é imagem de Deus. E então, não custa cumprir o primeiro dos mandamentos. Tanto é assim, irmãos, que nossa ocupação na eternidade será essa: amar, glorificar, ser felizes com Deus nosso Senhor.”

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Por fim, é precioso recordar as palavras do beato mártir Oscar Arnulfo Romero (1917-1980), arcebispo de San Salvador. Pastor e  defensor dos direitos humanos, que foi assassinado enquanto celebrava a Santa Missa: "Hoje a palavra de Deus nos convida à interioridade. ‘O Reino de Deus está dentro de vós’. Vivemos muito fora de nós mesmos. São poucos os homens que de verdade entram dentro de si, e por isso há tantos problemas, porque se de verdade nos colocássemos em nossa própria intimidade compreenderíamos que a voz do Senhor, a lei que nos santifica, não está lá nas alturas do céu somente. De que serviria, nos dizem os documentos da Igreja, mudar todas as estruturas sociais, políticas, econômicas, se não se muda o coração dos que hão de viver e manejar estas estruturas? Enquanto os que se preocupam dos problemas não entrarem dentro de si e desde seu próprio coração escutarem a palavra de Cristo, que nos diz terminantemente ante o doutor da lei que lhe pergunta qual é o principal mandamento: ‘Amarás ao Senhor teu Deus com todo teu coração, com toda tua alma, com todas as tuas forças, com todo teu ser”, de nada adiantaria  mudanças exteriores’.”

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            Se há algo que permite alguém nascer em uma realidade desfavorável rodeada de restrições ser resiliente com as dificuldades e formar-se um bom humano é a resiliência (explicação sociológica), o propósito divino (explicação religiosa) ou o amor (explicação minha mesmo); de outra forma o que faz alguém com história de vida inversa, e portanto mais feliz, com necessidades para a dignidade atendidas e envolto de bons referenciais humanos tornar-se alguém incivilizado é algo obscuro para mim.

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Penso que, para além de uma educação religiosa, educar para o amor e o respeito sejam o caminho mais seguro. Foi o que aconteceu comigo, não pela via intelectual, mas do exemplo. Eu olho para minha mãe e, de tão virtuosa que ela é, sei de imediato  como devo ser  e o que fazer. O sentimento de amor soterra preconceitos e dilata o olhar para a compaixão. Exemplo mais fundador o nosso ousado Jesus não poderia ter deixado, uma vez que sentava-se à mesa com pecadores;  acolheu Maria Madalena – conhecida como libertina e portadora de sete demônios - como discípula, fê-la primeira testemunha da ressureição e elogiou a veracidade da samaritana, que estava no sexto marido (algo escandaloso para a época); bem como defendeu uma mulher adúltera da violência dos fariseus.
Os cristãos já conhecem  (talvez os  não cristãos também, tal o lastro cultural do cristianismo no ocidente) : nós fomos escolhidos não apenas para a realidade ou mítica de viver uns anos neste mundo e depois ir para o céu. Cristãos receberam uma missão, que foi a de anunciar o Evangelho de Jesus e expressar o amor de Deus para a humanidade. Se sua prática religiosa ou espiritual não se transfigura empiricamente em amor, é hora de parar e refletir. O amor é o único que pode transformar o mundo, verdadeiramente.

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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Atribuição da filosofia em momentos como este é acelerar o desabamento





Nestes tempos de horizontes mundiais incertos e realidades políticas brutalizadas, é comum em palestras que profiro alguém perguntar sobre como a filosofia poderia nos auxiliar para nos sentirmos melhores. Esta é uma pergunta que parece aceitar de bom grado que o discurso filosófico teria alguma forma de função terapêutica a ser ouvida, principalmente em momentos de crise.
De fato, a pergunta não é estranha se lembrarmos da experiência social da filosofia nos últimos anos entre nós. Durante certo tempo, as livrarias brasileiras foram invadidas por títulos do calibre de "Mais Platão, Menos Prozac" ou "Schopenhauer e a Arte de Viver Bem". 

Como se o lugar do discurso filosófico fosse em algum ponto entre a prateleira de autoajuda e seção de livros clássicos. Falava-se algo sobre a "verdadeira felicidade", fazia-se uma crítica genérica ao curso do mundo, ao mundo em que tudo é mercadoria, aos "falsos prazeres". 


Marcelo Cipis/Editoria de Arte/Folhapress
Ilustração Vladimir Safatle de 16.set.2016

        Assim, encontrava-se um lugar para a filosofia na agenda das preocupações do dia. Daí a pedir que a filosofia funcione como um grande depositário de fórmulas de consolação foi um passo não muito longo. 

        Bem, se me permitirem, eu teria a tendência inversa. Gostaria de dizer que, se o discurso filosófico tem alguma função em momentos como este, é o de acelerar o desabamento, e não servir de síndico de prédios abandonados e arruinados. 

        Se Hegel um dia afirmou que o caminho da formação da consciência era o caminho do desespero, não foi um acaso. De certa forma, não é errado dizer que a filosofia, em seus setores mais avançados, foi, desde seu início, um regime de discurso constituído para permitir às sociedades criticarem as estruturas normativas que procuravam se fazer passar por representações naturais –estejam tais estruturas no campo das expectativas cognitivas, morais, estéticas ou na reflexão sobre a natureza da vida social, entre tantos outros. 

        Por isso, o maior antípoda do discurso filosófico sempre foi o senso comum e seu sistemas de pressuposições que se colocam como evidências. O senso comum quer que continuemos a pensar como pensamos, enquanto o discurso filosófico lembra que não é mais possível pensar da maneira como pensamos até agora. Quer dizer, a razão de ser do discurso filosófico sempre foi orientar as possibilidades da crítica, sempre foi apontar para o que é ainda uma latência da existência.
No entanto, é certo afirmar que a filosofia sempre foi o discurso daqueles que amam o que é ainda uma mera impossibilidade. 

        Para alguns, isso pode passar por exercício ocioso, mas outros lembrariam que tudo o que realmente fomos capazes de produzir foi impossível algum dia. Impossível é apenas o que não pode ser pensado na situação atual, mas há sempre aqueles que lutam com todas as forças para levar os sujeitos a acreditarem que, fora da situação atual, só haverá o caos, o terror, a catástrofe. Há os que se especializaram em paralisar pessoas através do medo. Que eles sejam bem pagos. 

        Nesse sentido, não é um acaso que o discurso filosófico se fortaleça exatamente quando as sociedades nas quais ele aparece começam a entrar em colapso. Ele é uma sismografia dos abalos que ocorrerão mais tarde. Assim, a filosofia das luzes (Rousseau, Voltaire, Diderot) foi o prenúncio do colapso do sistema absolutista, e não sua expressão. 

        O idealismo alemão (Kant, Fichte, Schelling, Hegel) foi gestado em um país retardatário e em luta contra seus arcaísmos. Nesses casos e em tantos outros, o discurso filosófico não apareceu como reflexo de uma época, mas como estratégia do espírito do tempo para levar uma época determinada mais rapidamente ao seu ponto de desabamento. 

        Lembrar disso é uma maneira de responder àqueles que anseiam por esquemas práticos o mais rápido possível. Como dizia à sua maneira Heidegger, muitas vezes agimos para não pensar. Ou seja, fazemos de tudo para novas questões não aparecerem, nem novas maneiras de responder a velhas questões. 

        Assim, podemos continuar a agir produzindo os mesmos erros de sempre. Uma ideia, ao contrário, é sua força de enunciação e a internalização do movimento de seus erros. Não houve ideia verdadeira alguma que não tenha começado errando. 

Obs.: O texto acima reproduzido foi publicado originalmente no site, que detém todos os créditos: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2016/09/1813733-atribuicao-da-filosofia-em-momentos-como-este-e-acelerar-o-desabamento.shtml

A falência do ensino brasileiro não é de seus professores

Vladimir Safatle


Depois de um anúncio catastrófico do projeto de reforma educacional do ensino médio proposto por aquilo que alguns chamam de "governo", esta semana viu uma sucessão de esforços para tentar vender à população a tese de que enfim chegaram as ações esperadas. 

Órgãos de propaganda do dito "governo" travestidos de revistas semanais apresentaram o projeto como um conjunto de medidas corajosas que visariam revolucionar o engessado ensino brasileiro. O senhor que ocupa o cargo de ministro da Educação apareceu enfim para tentar defender o projeto feito por sua equipe, isto enquanto o próprio Michel Miguel ligava não para especialistas em educação, mas para Fausto Silva, vulgo Faustão, para convencê-lo da grandeza do projeto criticado pelo referido.

Editoria de Arte/Folhapress
Ilustração de Marcelo Cipis da Coluna de Vladimir Safatle de 30 e setembro de 2016

Que uma das primeiras medidas do "governo" fosse intervir na educação nacional, eis algo que não deveria surpreender ninguém. O projeto apresentado nem de longe expressa alguma preocupação real com o aumento da qualidade de nossas escolas e com o desenvolvimento integral de nossos alunos. Seus eixos centrais são a segregação, a precarização da atividade docente e o puro e simples obscurantismo. 

Não é de admirar que a verdadeira equipe que produziu este projeto seja composta por "especialistas" que trabalham há décadas nos governos FHC, em Brasília, sob a batuta do ilibado José Arruda e nos governos tucanos de São Paulo, com resultados pífios e medíocres. De fato, não poderia ser diferente, já que a regra dessas senhoras e senhores é impor uma visão tecnocrata que despreza a inteligência prática de professores envolvidos nos processos de ensino, sendo os únicos realmente capazes de indicar o que funcionaria e o que não funcionaria. 

Contrariamente ao que se tentou vender, este país fez mudanças drásticas e constantes no ensino nas últimas décadas. Todas pecaram por desprezar os saberes daqueles que estão diretamente envolvidos nos processos, dando voz a burocratas e tecnocratas que nunca pisaram em uma sala de aula ou que não fazem isto há anos. A falência do ensino brasileiro não é de seus professores, mas de seus tecnocratas de gabinete. 

Veja três características mestras da dita reforma. Primeiro, ela cria diferentes possibilidades de escolhas para os estudantes depois de um período comum de um ano e meio. Eles poderão ter concentração de disciplinas em linguagens, matemática, ciências da natureza, humanas e ensino técnico. Até aÍ, nenhuma polêmica. Há anos todos os realmente envolvidos com educação insistem que os alunos devem poder escolher disciplinas mais próxima de seus interesses. Mas, como o diabo mora nos detalhes, a questão é: as redes e escolas podem não oferecer aos alunos todas as opções de concentração. Ou seja, você dorme com a promessa de uma escola mais diversa e acorda com a realidade de uma escola onde, por exemplo, a concentração de humanas não existe, onde o eixo de todos os esforços é o ensino técnico. O resultado será abrir as portas para uma segregação que consistirá em levar as escolas em regiões mais carentes a cada vez mais oferecer ensino técnico, cuja empregabilidade é mais rápida, porém muito mais precária. 

Por outro lado, qualquer programa minimamente sério começaria por qualificar melhor o corpo docente. Mas isso passaria por acabar, de uma vez por todas, com a precarização e os salários vergonhosos dos professores, uma das maiores razões para que nossos melhores alunos não queiram mais ser professores. O que há a esse respeito na dita reforma? Nada. No entanto, o projeto prevê que poderão ser contratados professores sem licenciatura, portadores de "reconhecido saber". Dificilmente haveria proposta mais absurda e irresponsável. Como dizia Hegel, não é porque todos têm mãos que todos podem produzir sapatos. Mas um governo que apresenta uma proposta como essa despreza os conhecimentos técnicos necessários para a docência. 

Por fim, havia a proposta medíocre de transformar artes, educação física, filosofia e sociologia em matérias não obrigatórias. Agora, a BNCC decidirá o destino, mas a pedra já está cantada. De fato, para os tecnocratas a sociedade não deve precisar de cidadãos que conheçam conceitos como conflito social, desencantamento do mundo, anomia social, modernização reflexiva, ética, moral, classe, consciência, razão, estética, lógica, pensamento crítico. É verdade, para votar em Michel Miguel e sua turma, é melhor não saber nada disso. 

Texto reproduzido originalmente publicado em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2016/09/1818065-a-falencia-do-ensino-brasileiro-nao-e-de-seus-professores.shtml

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